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Adoção consciente: amigo não se compra, adote um!

O(a) companheiro(a) ideal não se compra com dinheiro!

A ideia de se comprar um cão de raça, com pedigree, de um canil, pode parecer uma garantia de saúde ou de qualidades especiais, mas isso é um grave engano!

Muitas das raças de cães comercializadas no Brasil vêm apresentando crescente número de indivíduos com problemas, como transtornos de personalidade, doenças e debilidades congênitas, devido à consangüinidade.

Fazer um cão procriar é muito fácil, basta colocar um fêmea no cio junto com um macho. Por isso muitas pessoas completamente leigas têm a idéia de se dedicar à “criação” de cães, visando auferir lucro. Mas a questão é que a dedicação e o custo para se manter um cão bem tratado, alimentado, cuidado, sem parasitas ou doenças, e acima de tudo com carinho, são elevadíssimos! Apenas uma única dose mensal de remédio anti-pulgas de última geração custa de R$20,oo a R$40,oo dependendo do porte.

Não é possível obter lucro criando cães com todos os cuidados necessários!

Por isso os canis profissionais não têm outro remédio senão o “corte de despesas”, e isso quase sempre significa animais com deficiências nutricionais, muitas vezes com sarnas ou outros parasitas, e com assustadora freqüência com algum problema ligado à consangüinidade.

É verdade que existem pessoas que podem ter predileção por alguma raça determinada, com suas características próprias (trata-se apenas de uma questão de gosto pessoal). Mas mesmo essas pessoas só estarão seguras se ganharem um filhote de algum amigo ou conhecido. Se buscarem um anúncio em jornal, mesmo de um canil grande e antigo, correm o risco de comprar um cão que não seja o que esperam, eu mesmo passei por essa experiência, ao adquirir um labrador de ótimo pedigree: ele é um animal bondoso a quem amo muito, mas sua personalidade está longe de ter a serenidade característica dos labradores que conheci há uns 25 anos.

Afirmo tudo isso não para demonizar os criadores. Certamente há criadores sérios, que foram levados a entrar nesse ramo movidos justamente por seu amor aos cães. Eu próprio, há muito tempo, exatamente por esse motivo, pensei em ser criador: criador de fox-paulistinhas. Mas bastou um mínimo de contato com a realidade “comercial” desse ramo, para eu perceber o imenso abismo que existe entre o ambiente caloroso de uma casa onde um cão é amado, e a frieza do mercado que os comercializa. Das pessoas que procuram um criador de cães para comprar um filhote (seja em uma exposição ou por meio de um anúncio) poucas têm noção do trabalho e dos cuidados necessários para se manter um cão; e menos ainda escolhem uma raça por algum bom motivo. Algumas até se esquecem que o filhotinho vai crescer e se tornar adulto. E o triste resultado disso é que muitas vezes o cão acaba sendo indevidamente tratado, ou, pior ainda, abandonado pela pessoa que o comprou. (Certa vez eu escutei uma pessoa se “justificar” do abandono de um animal com a alegação de que ao crescer ele deixara de ser “tão bonitinho”).

A verdade é que a criação de cães, como quase todas as atividades do mundo de hoje, passou a ser regida pela dita “lógica do mercado”. E isso significa: criar a raça da moda (que por entrar na moda exige uma rápida multiplicação de matrizes, e por isso, inevitavelmente, consangüinidade). A “lógica do mercado” também exige redução de custos, e assim os canis precisam se transformar em “fábricas de cães”: fêmeas com ninhadas constantes, poucos gastos. O cão deixa de ser um amigo amado, e passa a ser um objeto.

Ao ponderar essas duas realidades, de um lado a frieza da produção em massa de animais para venda, e de outro abandono de animais por serem mestiços ou por serem adultos, perdi qualquer desejo de ser criador. Concluí que a maravilha da natureza que é a procriação desses animais amigos, torna-se algo triste nas mãos do ser humano.

Guarde seu dinheiro! Cão não se compra, nem se vende!

Antes de “comprar” um filhote, principalmente se for de uma “raça da moda”, pense que, além de correr um sério risco de não obter o que imagina, você estará contribuindo para duas industrias perversas. Uma são as “fábricas de cães”, a outra é o abandono, sofrimento e extermínio de animais mestiços e de raça, que não são desejados pelo “mercado”. Essas duas “indústrias” são simbióticas, ambas crescem juntas e ambas devem ser combatidas juntas.

Existem no Brasil dezenas (talvez centenas) de Entidades do mais alto gabarito, dedicadas a cuidar de animais sem dono e prepará-los para uma adoção bem sucedida. Lá você vai encontrar pessoas interessadas não em seu dinheiro, nem em lhe “empurrar” um animal que não seja adequado às suas necessidades; mas pessoas altruístas, cujo único interesse é encontrar um animal perfeito para você e sua família, seja para ser companheiro de seus filhos, seja para guardar sua casa, ou para qualquer outra finalidade. Essas Associações possuem veterinários, adestradores, tratadores, gente que realmente ama e entende os animais. Lá não vale a “lógica do mercado”, mas sim a “lógica do coração”. Qualquer animal lhe será entregue tratado, vacinado, desverminado e, o que é mais importante, com a personalidade conhecida e estudada.

Nessas associações você encontrará animais de todas as idades e portes, inclusive filhotes. Antes de “comprar” um filhote, não deixe de visitar uma dessas associações, e converse com uma das pessoas que se dedicam a elas, você certamente irá descobrir muitas coisas que nem imaginava, e terá a chance de passar a ser dono de um animal muito mais adequado a você e mais saudável do que o que obteria em um canil.

Pergunte a qualquer geneticista sobre o vigor híbrido!

Um cão mestiço é 99% das vezes mais vigoroso, mais resistente a doenças e menos sujeito a debilidades ou mal formações do que qualquer cão de raça. Isso porque a mestiçagem é o oposto da consangüinidade, ao invés das debilidades se multiplicarem, elas são anuladas pelos genes distintos. Essa mistura de genótipos tem até um nome: vigor híbrido. Esse fenômeno é conhecido há muito tempo pelos geneticistas.

Seja chic, desfile com um mestiço!

Nas últimas décadas, verificou-se na sociedade brasileira um grande aumento da sensibilidade das pessoas em relação à ecologia e ao respeito pelos outros seres vivos. Alguns hábitos mudaram. Qualquer tipo de desperdício que antes podia ser visto como sinal de opulência, hoje é visto como rudeza ou ignorância. A separação do lixo e a reciclagem eram algo impensável até meados do século XX, mas hoje são hábitos da maioria das famílias bem educadas. Da mesma forma, passear com um cão mestiço deixou de ser uma demonstração de “pobreza”, e passou a indicar uma atitude de sensibilidade e responsabilidade pelos outros seres. O dono de um mestiço é uma pessoa que colabora para que menos animais sofram com o abandono.

O que pode ser mais chic do que passear com um cãozinho saudável e alegre, cheiroso, de pelos e unhas aparados, perfeitamente tratado e mestiço?

(Texto escrito por André Masini, extraído do Gato Verde)

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